-Prezado João, para iniciar faça-nos sua apresentação: Idade, onde nasceu e cresceu, estado civil, filhos, formação acadêmica e profissional.
Nasci em 1966 (é fazer as contas) em Coimbra, onde ainda resido. Sou solteiro e bom rapaz, sem filhos (pelo menos que eu saiba...). Quanto à formação académica tenho um Mestrado em História da Arte e estou preparando um Doutorado em Sociologia, sobre os mangá no Ocidente. Sou crítico e guionista de BD e director editorial da revista Comix, editada pela Devir Portugal, onde sou também conselheiro editorial, para além de fazer revisões e traduções ocasionais.
-O quê e quando iniciou seu interesse pela Banda Desenhada (BD)?
-Na infância você lia muito, tanto BD quanto Literatura mainstream? Pode citar autores e obras que o influenciaram?
Sempre li bastante. Tanto BD como literatura. A BD americana, descobri-a graças às edições brasileiras da Ebal e Bloch editores, cujas sobras eram distribuídas em Portugal. Quanto a literatura, para além das séries da Enid Blyton (em especial Os Cinco) lembro-me de ter adorado A Ilha do Tesouro, de R. L. Stevenson e as Minas do rei Salomão, de H. Rider Agard (numa tradução muito livre do escritor português Eça de Queirós que, descobri-o depois, era melhor do que o original). Sempre gostei muito de histórias policiais, em especial de autores como Hamett, Chandler, ou James Ellroy, mas os autores que me marcaram mais, embora já na adolescência, foram Kafka e Jorge Luís Borges. Também me sinto bastante próximo do realismo mágico sul-americano, de que encontro ecos na obra de José Saramago, um dos meus escritores portugueses favoritos.
-Como se iniciou profissionalmente no género e qual foi sua primeira atividade?Atualmente o que tem feito na BD?
O meu primeiro trabalho pago foi uma coluna semanal sobre BD em 1994, no jornal Diário As Beiras, onde ainda escrevo, mas antes disso já colaborava em fanzines de e sobre BD e tinha um programa de rádio sobre quadrinhos, com o João Ramalho Santos (outro crítico e estudioso de BD português) na Rádio Universidade de Coimbra, chamado "Balada do Mar Salgado", o que dá para ver que gostávamos mesmo do Hugo Pratt, o criador de Corto Maltese...Atualmente, para além da minha atividade na Devir e das pesquisas para a Tese, tenho escrito guiões para BD, a meias com o João Ramalho, meu parceiro de longa data nestas andanças. Depois de Eden 2.0 (desenhado pelo Luís Louro) que saiu em Novembro de 2002, este ano temos um projecto a editar pela Devir que, por enquanto, é secreto, e uma história da cidade de Coimbra em BD (com vários desenhadores, portugueses e não só...) que vai ser lançada aproveitando uma exposição que estamos a organizar para Coimbra 2003 (Capital Nacional da Cultura)
-Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e com qual obra/ Lhe causou algum impacto especial?
Não tenho bem a certeza, mas creio que foi o Monstro do Pântano (Swamp Thing) que descobri nas revistas em formatinho da Abril, pouco depois de O Regresso do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, me ter reconciliado com os comics americanos. Considero a passagem de Alan Moore pela série um verdadeiro tratado em termos da renovação das histórias de terror, e lembro-me que chegámos a dedicar uma emissão especial da Balada do Mar Salgado ao Swamp Thing de Moore.
-Qual trabalho do mago bardo de Northampton que você considera sua obra-prima e porquê?
-Há vários e é-me difícil escolher um... tanto From Hell como Watchmen são duas obras-primas, mas também adoro V for Vendetta, a Liga dos Cavalheiros Extraordinários (um exemplo perfeito de uma ideia genial, muito bem concretizada) e outras obras “menores” como o divertidíssimo Bojjefries Saga, ou as histórias que Moore escreveu para The Spirit New Adventures, ou as aventuras de Jack B. Quick, na antologia Tomorrow Stories.
Para mim, o mais importante de Watchmen, é o rigor com que a história está construída, com uma precisão de relojoeiro, em que o mínimo pormenor está rigorosamente pensado e todas as peças encaixam na perfeição umas nas outras.
Além disso, é uma obra de uma importância histórica incontornável, que revolucionou, juntamente com o Dark Knight de Miller, as histórias de super-heróis.
-E From Hell, você acha que Moore conseguiu atingir plenamente seu intento de forjar em uma BD o caldeirão que nos preparou o Século XX, com toda sua paranóia, conspirações,contradições, horror e beleza?
Acho From Hell uma brilhante autópsia da Inglaterra vitoriana e um excelente livro, embora,como acontece também no Promethea, as suas reflexões sobre o tempo e a magia, acabem por se sobrepor à história. De qualquer modo, é um livro fascinante, muitíssimo bem documentado e o traço do Eddie Campbell adapta-se como uma luva ao texto de Moore.
-Ainda a propósito, o que você pensa da Magia?
Há um velho ditado espanhol que diz “jo no creo en las brujas, pero las hay, hay!”. É mais ou menos essa a minha posição em relação à magia. Há tanta coisa inexplicável neste mundo... Em termos meramente racionais, as teorias de Moore são delirantes, mas a verdade é que ele é extremamente convincente e apresenta as coisas através de um tipo de raciocínio que parece bater certo.
-E de Big Numbers a inacabada magnus-opus, a Teoria do Caos, os Fractais? Você acha que uma BD tem a capacidade de abarcar tamanha complexidade e ser compreendida?
É um bocado complicado para mim falar sobre Big Numbers, pois só li o primeiro nº. Mas, se calhar Moore foi demasiado ambicioso nos seus objectivos, a prova é que ainda não arranjou um desenhador capaz de dar vida a essa ambição. Esperemos que a ideia de transformar Big Numbers numa série de TV, que Moore refere nalgumas entrevistas, vá para a frente, pois tenho curiosidade de ver até onde o levarão as teorias de Moore.-Sobre a BD em Portugal, o que você considera que a distingue das Histórias em Quadrinhos brasileiras, se conheces estas?
Acho que conheço razoavelmente a BD brasileira. Gosto muito de autores como Angeli, Laerte, Gonsales e Mutarelli, que a Devir distribui em Portugal e de Osvaldo Pavaneli e Flavio Colin. Também adorei O Vira Lata, de Paulo Garfunkel e Libero Malavoglia!
Penso que a principal diferença é que a BD brasileira é mais influenciada pelos comics americanos, do que a portuguesa, muito mais próxima da BD franco-belga. De resto, em ambos os países há grandes autores como uma voz própria, o que não impede que exista alguma proximidade temática entre o vosso Lourenço Mutarelli e o nosso José Carlos Fernandes, por exemplo.
-Sobre a Exposição-Homenagem a Alan Moore, Argumentos, realizada em Amadora, você acha que o evento atingiu plenamente os objetivos dos seus realizadores? E atendeu às expectativas do público?
Acho que a exposição foi um sucesso, sobretudo em termos da projecção da imagem do Festival da Amadora no estrangeiro. Sei que, por exemplo, vai estar no Centro Belga da BD em 2004.
De qualquer modo, tendo em conta a excepcional qualidade do material disponível, acho que há aspectos que podiam ter sido melhor explorados, como os roteiros originais de Alan Moore, amontoados em vitrines, quando podiam estar perfeitamente em confronto com as páginas desenhadas. Também o catálogo podia ser melhor, sobretudo em termos de ilustrações. E, embora seja suspeito, acho que a Comix nº 4, dedicada a Alan Moore dá uma melhor panorâmica da obra do mago de Northampton do que o catálogo da exposição...
-Como foi seu encontro com colaboradores de Moore, como o artista espanhol José Villarrubia e a própria companheira, Melinda Gebbie? – veja foto abaixo e na Galeria.
Foi bastante agradável e descontraído! São ambos muito simpáticos e acessíveis, mas na verdade, acabei por falar mais com outros colaboradores de Moore, como o Rick Veitch, que já tinha estado na Amadora, há dois ou três anos, com Kevin O’Neill, que entrevistei para a Comix, ou o argentino Oscar Zarate, que é amigo de José Muñoz, um autor que eu conheço há alguns anos.
-O nosso amigo David Soares está com sua excelente novela gráfica A Última Grande Sala de Cinema e o CD performático Lisboa, os quais eu achei bem próximo ao trabalho de Moore e denotam grande potencial. Qual sua opinião sobre estas obras e quais autores portugueses têm se destacado no momento, dentro desse estilo de BD adulta e inteligente?
Também acho que os últimos trabalhos do David tem grandes afinidades com o trabalho de Alan Moore, o que não impede o David de ter uma voz própria e ter criado uma obra muito sólida e interessante, onde as reflexões sobre o acto criativo e as variações sobre a temática do terror, são tratadas de uma forma extremamente interessante.
Mas a vantagem de autores como o David Soares, ou o José Carlos Fernandes, que considero o melhor autor português actual, é que tem uma grande bagagem cultural e um universo de referências que extravasa e muito a BD. É isso, e a vontade (e a capacidade) de contarem histórias interessantes através da BD, que os distingue da maioria dos seus colegas portugueses. O problema da BD (e também do cinema) português, é que falta gente que saiba contar histórias interessante, de maneira eficaz. Temos grandes desenhadores, como Miguel Rocha, Diniz Conefrey, João Fazenda, Filipe Abranches, Luís Louro, Pedro Pires e Nuno Saraiva, mas que muitas vezes falham como argumentistas, por estarem mais interessados na parte estética do que em comunicar com o leitor.-Como funciona a Devir, é uma Editora-Distribuidora multinacional ? Tem filiais no Brasil e em quais outros países?
A Devir nasceu no Brasil, primeiro como importadora de BD, mas foi graças ao negócio do Role Play e das cartas de Magic que adquiriu a importância que tem hoje. Do Brasil, a Devir chegou a Portugal, onde além das cartas e dos jogos foi a editora que pela primeira vez apostou em força na divulgação dos comics americanos (que antes chegavam via Brasil). Recentemente, criou-se uma sucursal em Espanha, a Devir Ibéria. O facto da empresa funcionar em três países permite trabalhar numa economia de escala e preparar edições simultâneas para os 3 países, o que reduz, e muito, os custos, tornando muito mais viável dar a conhecer os autores portugueses em Espanha e no Brasil, ou divulgar os brasileiros em Espanha e Portugal.
-Além da excelente Comix nº 4 especial Alan Moore e da própria edição inaugural, que também trouxe uma HQ dele, a Devir tem algum novo projeto relacionado ao Orson Welles da BD?
Montanhas! O Alan Moore é, a par com Neil Gaiman, um dos escritores em quem a Devir mais aposta. Editámos a Liga dos Cavalheiros Extraordinários (com grande sucesso, com o vol. 1 a esgotar em poucos meses) e a Piada Mortal e pretendemos editar também o Promethea e claro, os Watchmen, embora esse título não esteja previsto para já, tal como o Swamp Thing que provavelmente editaremos a preto e branco. Mas, de momento, a nossa prioridade são os títulos da América Best Comics e, a esse nível, estamos a preparar uma surpresa para os leitores brasileiros.
-Como está o mercado da BD atualmente em Portugal e, por extensão, no resto da Europa?
Em Portugal, o mercado de BD está em alta em termos de edição (nunca se editou tanta BD) mas as vendas não acompanham o boom da edição, até porque estamos num periodo de recessão. Por isso, não acredito que este boom se mantenha por muito mais tempo e é natural que nem todas as editoras resistam à crise. No fundo, a lei de Darwin também se aplica à BD e também aqui, apenas as editoras mais fortes sobreviverão
No caso da Devir, temos a vantagem de nos centrarmos essencialmente nos comics americanos, área onde não temos praticamente concorrência, ao contrário da BD franco-belga, onde há uma luta feroz pelas melhores séries. Quanto aos autores portugueses, depois de um período em que viviam essencialmente de subsídios e apoios institucionais, acho que se estão a saber adaptar bem às regras do mercado.
Quanto ao resto da Europa, apenas posso falar de França e Espanha, onde a BD prospera a olhos vistos, não só porque a crise não os afectou como a Portugal, mas sobretudo porque o crescimento editorial nesses países foi perfeitamente sustentado, ao contrário do que sucedeu em Portugal, onde ouve uma autêntica explosão, com o nº de títulos a duplicar em 6 meses!
Muito obrigado, Amigo.

